A explosão da mulher na música do Brasil em 1979 ecoa há 40 anos – A estreia de Angela Ro Ro

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A VOZ DA MULHER EM 1979 (PARTE 4) – Angela Ro Ro já rondava a cena musical brasileira desde o início da década de 1970, mas somente lançou o primeiro álbum em 1979, contribuindo decisivamente para a explosão feminina na MPB naquele ano.
Sete anos após ter tocado gaita em participação (não creditada) na gravação de Nostalgia (That’s what rock’n’roll is all about) (Caetano Veloso, 1972), música que encerra o segundo álbum londrino de Caetano Veloso, Transa (1972), Ro Ro debutou como cantora e compositora em disco que, com o passar dos anos, se tornou uma espécie de best of do repertório da artista carioca.
Já virou até clichê caracterizar Angela Ro Ro como mistura singular e improvável de Maysa (1936 – 1977) com Janis Joplin (1943 – 1970). Só que o clichê faz sentido e ajuda a entender o espírito do álbum Angela Ro Ro, lançado em 1979 pela Polydor – selo que representava o braço popular da gravadora Philips – com repertório arrasador que mixava com sensibilidade o lamento desesperado do blues, a atitude do rock, o suingue do boogie e a melancolia dramática do samba-canção.
Angela Ro Ro no show, ‘Pilotando o piano’, em que revisita o repertório do álbum de 1979
Mauro Ferreira / G1
Ro Ro já chegou ardendo na fogueira das paixões, com o diferencial de assumir a homossexualidade no gênero dos versos das letras de canções como Tola foi você (1979), uma das pérolas deste disco gravado com o toque personalíssimo do piano de Ro Ro.
Esse cancioneiro lapidar já vinha sendo burilado e apresentado pela compositora ao longo dos anos 1970. Se tivesse sido concretizado o projeto de álbum com trechos das gravações ao vivo dos shows do festival Som, sol & surf – Saquarema, realizado em 1976 na cidade fluminense de Saquarema (RJ), a voz rouca e intensa da cantora poderia ter sido ouvida em disco três anos antes do álbum Angela Ro Ro.
Contudo, talvez não fosse a hora certa. Por força do destino ou por acaso, Ro Ro debutou mesmo em disco no emblemático ano de 1979, em movimento feminino consolidado pela projeção do repertório autoral de Joyce Moreno e pelos lançamentos quase simultâneos dos primeiros álbuns das cantoras e compositoras Fátima Guedes e Marina Lima.
Foi no álbum de Marina, aliás, Simples como fogo, lançado no primeiro semestre de 1979, que uma música de Ro Ro foi pela primeira vez registrada em disco. A canção Não há cabeça foi lançada por Marina em gravação feita com o toque do piano de Ro Ro, sendo regravada pela autora no mesmo ano para o álbum projetado nas rádios com o sucesso da canção Amor, meu grande amor, parceria de Ro Ro com a compositora letrista Ana Terra.
A mim e a mais ninguém (Angela Ro Ro e Sérgio Bandeira), Abre o coração, Agito e uso, Balada da arrasada, Cheirando a amor, Mares da Espanha, Gota de sangue – canção gravada por Maria Bethânia naquele menos ano para o álbum Mel (1979) – e Me acalmo danando são outras músicas que, além das já canções já mencionadas, compõem o repertório inteiramente autoral de um dos melhores primeiros álbuns de um artista todos os tempos.
Embebida em eventual irreverência, a melancolia do cancioneiro do álbum de estreia de Angela Ro Ro continua embriagante 40 anos após a edição deste disco antológico que ainda cheira a amor e dor com o mesmo frescor de 1979.
♪ Leia os textos anteriores da série temática do blog sobre a revolução musical feminina de 1979:
A explosão da mulher na música do Brasil em 1979 ecoa há 40 anos – A estreia de Marina Lima
A explosão da mulher na música do Brasil em 1979 ecoa há 40 anos – A estreia de Fátima Guedes
A explosão da mulher na música do Brasil em 1979 ecoa há 40 anos – A contribuição de Joyce Moreno

Editoria de Arte / G1