Um jovem zangado

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Albert Finney em cena de ‘Nunca te amei’ (1994)
Divulgação
Albert Finney era inglês. E ator. Não é preciso recorrer ao velho exagero, segundo o qual “ator inglês ruim nasceu morto”, para dizer que é óbvio considerar Albert Finney bom ator. Na opinião de muitos, excelente. Morreu aos 82 anos, dia 7 de fevereiro, na mesma Londres em que se consagrou antes de conquistar Berlim, Veneza, Buenos Aires, Nova York, Hollywood, lugares tão diferentes por onde foi premiado.
É curioso que as primeiras homenagens que lemos ao excelente ator inglês estejam relacionadas a prêmio. E justamente a um que ele não ganhou: o Oscar. São lembradas suas atuações como Tom Jones, um cônsul britânico morrendo no México, decadente ator shakespeariano, o inspetor Maigret e o patrão de Erin Brockovich. Também citados são o contador de histórias de Peixe Grande e até um vilão no terceiro filme da série Bourne.
Prêmios à parte, há outros desempenhos tão ou mais memoráveis, como os de “Nunca te amei”, refilmagem de “The Browning Version” (na primeira, outro excelente ator inglês: Michael Redgrave) e “Caminho para Dois”, onde Albert Finney vive com Audrey Hepburn uma história de amor e desencontros ao som de Henry Mancini.
Mas, estranho que possa ser, o talento de Albert Finney nos remete principalmente a outro filme, da época em que os “angry young men” eram o que havia de mais novo e interessante na literatura inglesa. Eram jovens escritores que em fins da década de 50 e durante toda a de 60 tinham uma visão crítica e meio anárquica do que entendiam como alienação da sociedade tradicional britânica.
Entre eles, Harold Pinter e Alan Silitoe. É deste uma pequena obra-prima intitulada “Sábado à noite, domingo de manhã”, romance que virou filme em 1960. Portanto, três anos antes de Tom Jones. E quem foi o escolhido para fazer o papel do jovem operário de trabalho duro e mal pago que aguarda o fim de semana como única compensação? Albert Finney, claro, então com 23 anos. Era seu segundo papel no cinema.
Os escritores acabaram levando suas zangas por caminhos oposto, uns para a esquerda, outros para a direita. Mas é do ator que melhor simbolizou aqueles tempos, perfeito no papel de um rebelde sem causa e sem esperança, que nos lembramos ao lado dos tantos preteridos pelo Oscar.