Queda de Thiago Pethit como compositor é amenizada pela grandeza sinfônica do álbum ‘Mal dos trópicos’

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Disco humaniza o mito grego Orfeu na efervescência noturna de São Paulo Um dos nomes artisticamente mais ambiciosos da populosa cena indie musical do Brasil, Thiago Pethit ascendeu a partir do segundo álbum, Estrela decadente (2012), disco sombrio em que o cantor e compositor paulistano aguçou e teatralizou a dor entre batidas de rock que preservaram o clima de cabaré em que foi ambientado o álbum anterior Berlim, Texas (2010).
Na rota existencial e marginal desse trovador dândi inicialmente movido pelo folk, o ponto culminante foi atingido com o terceiro álbum, Rock’n’roll sugar darling (2014). Pethit se iluminou neste disco sujo entre rocks e baladas que aproximaram o grupo pré-punk The Stooges de David Lynch através da chama acendida pelo pioneiro Elvis Presley (1935 – 1977).
Cinco anos depois, o artista ressurge com Mal dos trópicos (Queda e ascensão de Orfeu da Consolação), álbum lançado na sexta-feira, 15 de março de 2019, com arranjos de tom sinfônico.
Neste disco, produzido e orquestrado de forma grandiosa pelo carioca Diogo Strausz, Pethit transpõe a tragédia do mito grego Orfeu para o cenário urbano e noturno da cidade de São Paulo (SP), palco efervescente da descida ao inferno existencial de um herói transmutado em ser de carne e osso, alvo de paixões mundanas.
Capa do álbum ‘Mal dos trópicos’, de Thiago Pethit
Divulgação
O conceito é monumental como os arranjos de Strausz, idealizados e formatados com mix de referências e influências que vão das obras clássicas de Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959) até as batidas de trip-hop, passando pelo jazz, pelo canto das óperas e pelo samba, ritmo que deu o mote da transformação anterior do mito grego reimaginado por Vinicius de Moraes (1913 – 1989) na década de 1950 como herói negro de favela carioca na peça Orfeu da Conceição.
O álbum Mal dos trópicos (Queda e ascensão de Orfeu da Consolação) mantém elevada a ambição artística de Pethit. A questão é que, desta vez, o artista se apequena como compositor diante da suntuosidade sinfônica dos arranjos de Diogo Strausz, já sinalizada em Abre-alas (Thiago Pethit e Diogo Strausz).
Essa épica e operística introdução do disco apresenta Mal dos trópicos com tema cuja letra é composta somente pelos versos “Volto, volto, volto / Eu que sou filho do sol / Volto em luto e choro em pleno Carnaval”.
O luto acontece em razão da ausência do amor, dor já anunciada no single Noite vazia (Thiago Pethit e Diogo Strausz) – com a moldura orquestral das cordas do Quarteto da Cidade de São Paulo – e reiterada em Me destrói (Thiago Pethit) em sinfonia trip-hop noir que aponta (ao mesmo tempo em que abafa) a rota marginal deste Orfeu tropical, gay, abandonado e sedento de sexo e sêmen.
Thiago Pethit lança álbum produzido por Diogo Strausz com conceito ambicioso e arranjos suntuosos
Rafael Barion / Divulgação
Trata-se de disco em que o produtor soa mais imponente do que o cantor, amenizando a queda da obra do compositor. Mérito de Diogo Strausz, que confirma na formatação de Mal dos trópicos o talento singular como produtor evidenciado no segundo álbum de Alice Caymmi, Rainha dos raios (2014).
Pontos mais altos da atual safra autoral do compositor, a balada Orfeu (Thiago Pethit) e o samba Rio (Thiago Pethit), com o qual o cantor cai de bossa no universo musical que gerou a peça Orfeu da Conceição em 1954, atestam que, quando a suntuosidade orquestral é dosada sem anular a grandiosidade do arranjo, o ouvinte frui melhor a obra de Pethit, ainda que essa grandiosidade seja paradoxalmente providencial para amortizar a queda da qualidade do repertório.
Orfeu – canção de beleza evidenciada pelo arranjo em que sobressai o piano de armário tocado por Zé Manoel – e Teu homem (Thiago Pethit) são baladas que situam o vazio apocalíptico do Orfeu tropical na mesma rota marginal punk de Rock’n’roll sugar darling, conectando este disco de 2014 a Mal dos trópicos em elo que reforça a unidade autoral do cancioneiro de Pethit.
Thiago Pethit regrava a canção ‘Nature boy’ no álbum ‘Mal dos trópicos’
Rafael Barion / Divulgação
Tal coesão é curiosamente ampliada pela única música de lavra alheia do repertório do álbum, Nature boy (Eden Ahbez, 1948), standard norte-americano do jazz de inspiração gay. Feita a capella por Pethit, com arranjo vocal criado por Strausz e encorpado pelo coro das vozes do grupo Seis Canta, a abordagem de Nature boy sacraliza o amor profano que pauta o disco.
No fim, tudo acaba literalmente em samba, com o toque da percussão de Badê remetendo à reinvenção de Orfeu por Vinicius de Moraes na música-título Mal dos trópicos, em cuja composição Pethit se valeu de colaboração póstuma com Roberto Piva (1937 – 2010), poeta paulistano jogado na vala dos malditos, e de link com Liana Padilha, poeta e cantora da banda NoPorn, inserida na parceria pela autoria da letra do poema falado da faixa.
O álbum Mal dos trópicos subverte o fim trágico de Orfeu. Transmutado em ser de carne e osso, o Orfeu da Consolação de Thiago Pethit sai do inferno e ascende, pelo sexo, ao céu dos amores profanos, pondo fim à saga de disco que merece atenção e que, se nem sempre ascende como Orfeu da Consolação, é porque o compositor nem sempre brilha na medida da grandeza do conceito, dos arranjos e da produção do álbum. (Cotação: * * * 1/2)

Editoria de Arte / G1