‘Game of Thrones’ só piora. E isso é uma ótima notícia

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daenerys Targarye (Emilia Clarke) em cena de ‘Game of Thrones’
Divulgação/HBO
Quando “Game of Thrones” era inesquecível nossa vida era pior.
Em 2015, quase fui preso por suspeita de terrorismo em um vôo de Barcelona para Paris porque me recusei a, na hora da aterrisagem na capital francesa, fechar o meu laptop bem na hora que os Caminhantes Brancos atacam Durolar, no final do episódio “Hardhome”. Por 10 minutos, sob suspeita, o avião foi obrigado a se afastar da zona metropolitana da cidade e por ela voar por mais 15 minutos, enquanto a confusão se formava na classe econômica.
Anos antes, durante o Casamento Vermelho, quase levei um aprazível e silencioso bairro belga de Bruxelas a chamar a polícia porque eu gritava “Não!”, “Não!” às 5:30 da manhã, hora em que o episódio “Rains of Castamere” foi exibido por lá.
Quando a série “Game of Thrones” era inesquecível, domingo à noite era tenso. Qualquer um podia morrer. Nos importávamos com todos os personagens. Prendíamos a respiração. Ir ao banheiro durante um episódio, nem pensar.
Quando a série era inesquecível, passávamos uma semana perturbados com diálogos matadores que nos tiravam o sono e faziam questionar-mo-nos a nós próprios como ser no mundo, como quando na cena onde vimos o regicida na banheira com Brienne de Tarth, terminando seu inesquecível monólogo com um metafísico “Jaime… meu nome é Jaime”, no episódio “Kissed by Fire”, da terceira temporada.
Nós questionávamos o tempo todo: “como posso agora estar torcendo para um personagem que eu o odiava na temporada passada?”
Quando “Game of Thrones” era inesquecível, dava um trabalho enorme convencer os adultos de que a série não era sobre zumbis e dragões, e sim sobre a natureza humana. Que explicava política melhor do que séries como “House Of Cards”, o poder dos bancos e a imoralidade do capital melhor que “O Lobo de Wall Street”, e toda a condição medieval que as mulheres ainda hoje se encontram.
Quase tanto trabalho quanto tentar esquecer as frustrações que a série nos dava, como o desfecho do duelo Montanha versus Oberyn Martell, três capítulos após o personagem ter, em mais uma fala inesquecível, explicado toda a(s) nossa(s) natureza(s) sexual(is).
Assistir “Game of Thrones”, quando a série era inesquecível, era definitivamente para os fortes.
Quando estive pessoalmente com George R.R. Martin em Londres, em um encontro acidental, já cobravam-lhe o livro que concluirá a série de livros que “Game of Thrones” adapta para TV. Estava claro que ele não iria se responsabilizar pela conclusão da série na tela. Mês passado, o autor oficialmente confirmou isso: “Nem li os roteiros da temporada final”, esquivou-se.
Sem o material ou suporte de Martin, “Game of Thrones” tornou-se então, desde a temporada passada, em uma série trash de zumbis e dragões.
Uma delícia. Um alívio.
Agora já podemos assistir aos episódios com amigos, batendo papo, olhando pros lados, sem prestar muita atenção. Se morrer um personagem, a verdade é que já não nos importamos tanto. Não sofreremos mais que cinco segundos. Já dá para passar uma noite de domingo divertida, rindo de cenas como a do passeio de dragão de Jon e Daenerys, recebendo no whatsapp memes com o ex-Rei do Norte dizendo falas de faroeste maravilhosamente decadente, como: “É frio aqui para uma garota do sul”.
Agora dá até para sair da sala e fazer xixi tranquilamente.
“Game of Thrones”, paradoxalmente, deve toda a sua fama ao que não é mais. Deve tudo a uma excelência que, sem os livros, os responsáveis pela série audiovisual não tiveram a capacidade de manter. Paradoxalmente, a verdade é que se uma pessoa que nunca viu “Game of Thrones” porque acha que é “uma série boba com zumbis e dragões” resolver assistir um episódio das últimas duas temporadas, vai descobrir que “é uma série boba com zumbis e dragões”.
Como explicar para quem resolveu acompanhar a série a partir do capítulo de ontem, estreia da última temporada, que aquela Daenerys Targaryen, que suspira e pensa em passar mil anos com o amante em baixo de cachoeiras geladas do norte com um “príncipe”, possa ser a mesma Deanerys que, ao fim da temporada 6 coerentemente desenvolve um imediato crush com Yara Greyjoy?
O bom é que agora não se precisa explicar nada. Uma série boba com zumbis e dragões feita pensando em mimar os fãs é tudo que a gente quer para reunir os amigos e nos distrair para mais uma semana de vida dura.
Foram 6 anos dedicados ao sofrimento e ao trabalho de acompanhar “Game of Thrones”. Merecemos esse descanso no final. De drama sombrio a comédia involuntária, aqui estamos. Os roteiros dos episódios desta última temporada foram, como na temporada passada, vazados, e ontem vimos que o vazamento eram dos roteiros reais. Agora é esperar ainda muitos risos, inclusive com as tentativas que farão de nos comover com algo. Podem até conseguir. Por cinco segundos. Mas agora é achar graça de tudo. “Game of Thornes” está aí, agora, para ser “zoada”, como diz o teu filho adolescente que agora sim dá para você chamar para ver a série contigo – porque antes achava que era “muito coisa de menina feminista”.
A hora é de nos divertir. “Zoar”. Zombar. Desapegar. Desconsiderar. Descuidar. Relaxar. Cochilar. Até mijar.
E, finalmente, esquecer.