Alergias alimentares: a vida de quem não pode comer ‘quase nada’

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Debbie Schmid, de 46 anos, tem alergia a frutas, legumes e verduras cruas, laticínios, soja, glúten, lactose, nozes e frutos do mar, mas diz que transformou restrições alimentares em algo ‘positivo’. Debbie Schmid conta que aprendeu a transformar suas limitações alimentares em algo positivo
BBC
Já imaginou se você não puder comer frutas, legumes e verduras cruas? Parece inconveniente, limitante e pouco saudável.
E se você adicionar às restrições laticínios, soja, glúten, lactose, nozes e frutos do mar?
Isso significa cortar pão, leite, queijo, iogurte, cereais, peixe, macarrão, pizza, molhos prontos, bolos, biscoitos e chocolate – uma lista que não para por aí.
Esta é a realidade de Debbie Schmid, de 46 anos, que mora na Cornualha, na Inglaterra.
Ela vive de acordo com uma “lista exaustiva e extraordinariamente longa” de alimentos proibidos devido às suas alergias e intolerâncias. E explica como conseguiu transformar suas restrições alimentares no que acredita ser algo “positivo”.
Debbie não pode comer frutas, legumes e verduras crus
Pixabay
“É a piada mais cruel que alguém poderia fazer, porque eu realmente gosto de comer”, diz Debbie.
Ela é alérgica a frutos do mar, nozes e aipo (salsão), e também sofre da síndrome da alergia oral, o que significa que todas as frutas, legumes e verduras cruas fazem mal a ela – assim como laticínios, lactose, soja, trigo e produtos que contêm glúten.
Como consequência, Debbie anda sempre com duas Epipens – adrenalina autoinjetável – na bolsa devido à ameaça de uma reação alérgica e choque anafilático.
Assim como ela, existe um número crescente de pessoas que precisam evitar diariamente diversos alimentos para prevenir doenças e até a morte.
“Eu tenho que tomar anti-histamínico todos os dias para afastar outras coisas, porque não acredito que saiba todos os tipos de alergia que tenho”, explica.
“Os anti-histamínicos padrão têm cerca de 10 mg. Os meus são de aproximadamente 180 mg cada.”
Debbie diz que seus problemas começaram em 2005, quando estava grávida de 20 semanas e abortou o bebê.
Uma semana depois, ela desenvolveu pela primeira vez uma alergia no pescoço após comer frutos do mar no jantar.
Debbie diz que toda a família está feliz em comer o mesmo que ela
BBC
“Acho que foi uma alteração hormonal que provocou essa mudança no meu corpo… e se tornou constante desde então, e cada vez que eu tinha, ficava um pouco pior.”
“Eu só tinha comido um camarão… Começou uma erupção que literalmente subiu pelo meu corpo, fiquei muito quente, bastante desorientada, me senti muito mal e depois fiquei com muito frio”, se recorda.
“A última coisa que eu lembro desse episódio em particular foi de rastejar até a cama… Eu sentia apenas que precisava apagar.”
Depois desse incidente “assustador”, Debbie foi encaminhada a uma clínica especializada em Plymouth, onde foi diagnosticada com anafilaxia – reação alérgica aguda e potencialmente fatal, no caso de frutos do mar, nozes e aipo.
Ela também foi diagnosticada com síndrome da alergia oral, conhecida como síndrome pólen-alimento, que causa coceira, inchaço e desconforto na boca e garganta após a ingestão de frutas ou verduras e legumes crus.
Esse tipo de alergia aumentou significativamente nos últimos 20 anos, se tornando a principal forma de alergia alimentar no Ocidente, segundo especialistas.
Debbie tem reações alérgicas graves a frutos do mar
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Debbie diz que as reações alérgicas aumentaram à medida que ela foi ficando mais velha.
Ela se recorda de “se acabar em lágrimas” no centro da cidade porque não havia “nada” que pudesse comer.
“Eu só me lembro de pegar todos os sanduíches e ver que todos tinham glúten, e se não tinham glúten, tinham manteiga, queijo e sabe-se lá mais o quê. Eu não podia comer nem uma maçã. Só conseguia pensar: ‘estou com muita fome’.”
“Eu soluçava olhando para os alimentos que não podia comer… acho que a principal mudança é essa, você precisa se concentrar naquilo que pode comer”.
Desde então, ela aprendeu a reformular sua dieta e atitude e diz que não sente mais falta de nada.
O que desencadeia a alergia?
O médico Hasan Arshad, professor de alergia e imunologia clínica da Universidade de Southampton, no Reino Unido, diz que os pacientes às vezes desenvolvem alergias após algum “acontecimento” na vida.
“Esse acontecimento pode ser uma série de coisas, por exemplo, uma gastroenterite, uma infecção que provoca estresse no sistema imunológico. Pode ser um evento hormonal, pode ser o estresse físico”, explica.
“Há algumas evidências experimentais de que, uma vez que o sistema imunológico é ‘ofendido’ de alguma forma, que leve à quebra da tolerância, e à comida que era tolerada, o sistema imunológico reage a ela”.
Ele destaca que o número de pessoas nos países ocidentais que estão sendo diagnosticadas com alergia está crescendo, o que ele acredita estar ligado a ambientes “ultralimpos”, em contraste com os das gerações anteriores.
Arshad, que também é diretor do David Hide Asthma and Allergy Research Centre na Ilha de Wight, na Inglaterra, lembra que as alergias podem ter um efeito profundo sobre a saúde mental dos pacientes.
“Muitas pessoas relatam que têm medo de sair, e isso é comum em crianças também. Elas vivem constantemente com medo de que possam ter uma reação… isso pode ser devastador”.
“As pessoas perguntam: ‘Você come?’, sim eu como, e como bastante”, diz Debbie.
“Você tem basicamente que cozinhar do zero, você não pode confiar em enlatados, molhos prontos e coisas assim, o que para ser honesta eu prefiro não consumir de qualquer maneira.”
“Fazemos muitas pastas de curry e pastas tailandesas, preparamos nossos próprios molhos, fazemos muitos legumes cozidos no vapor. Posso comer massas sem glúten, muitos pratos à base de arroz, carnes, ovos, há uma variedade incrível de queijos veganos, e faço meus próprios bolos”, revela.
“O único aspecto negativo, para mim, é que você não pode ser espontâneo e pensar ‘vou sair e comer alguma coisa’.”
“Isso exige um planejamento prévio da minha parte… Preciso entrar em contato com o restaurante ou café, me certificar de que eles podem servir comida para mim e estão felizes com isso”, explica.
“Então minha lista de opções (de restaurante) não é muito longa.”
Ela conta que quando vai a uma festa costuma comer antes e só toma um drinque – se for a um jantar, precisa ter uma “longa conversa (com os anfitriões) antes sobre as principais coisas que precisam evitar”.
“Petiscos são complicados, mas se tenho vontade de comer algo doce, pego um pouco de cacau em pó, óleo de coco e manteiga de coco e faço meu próprio chocolate.”
Debbie diz que sua família e amigos são extremamente compreensivos, e que seu marido e filhos comem as mesmas refeições que ela em casa.
As crianças, com nove e 12 anos, aprenderam a usar sua Epipen para o caso de uma emergência.
“Meus filhos ficam muito preocupados”, afirma. “Eles costumam perguntar: ‘Mamãe, você está bem? Aquelas pessoas estão comendo camarão’… mas é só tranquilizá-los que fica tudo bem.”
Alimentos que fazem parte da dieta cotidiana da maioria das pessoas estão fora do cardápio de Debbie – muitas vezes por mais de um motivo
Pixabay/Divulgação
Seu filho tem intolerância a laticínios e lactose desde um ano de idade, mas não apresenta outros sinais de reações alérgicas.
“Minha filha pode comer qualquer coisa, o que é incrível”, diz Debbie com um sorriso no rosto.
Ela acrescenta que a reação das pessoas é muitas vezes desafiadora – de vez em quando alguém insinuava que ela decidiu ser assim.
“Antes, a reação era: ‘Sério? Você também não pode comer isso?’, mas desde que fui diagnosticada adequadamente todo mundo tem me apoiado”, diz ela.
“Acho que tem sido uma coisa boa para mim… me deixou mais consciente da comida”.
“Apesar de tudo, acho que tem sido muito positivo.”
Lidando com alergias
– A alergia é uma reação produzida pelo sistema imunológico do corpo quando exposto a uma substância normalmente inofensiva.
– Existem basicamente dois tipos de medicamentos que podem ser usados ​​para aliviar os sintomas de uma reação alérgica a alimentos: anti-histamínicos e adrenalina para reações graves.
– A adrenalina funciona estreitando os vasos sanguíneos para neutralizar os efeitos da pressão arterial baixa e abrindo as vias aéreas para ajudar a aliviar as dificuldades respiratórias.
– A síndrome da alergia oral é causada por anticorpos que confundem certas proteínas em frutas frescas, nozes ou vegetais com pólen. É possível desativar os alérgenos cozinhando qualquer fruta, legume e verdura.
Fonte: NHS, sistema de saúde público do Reino Unido.