Após ano fraco, economia começa 2019 sem fôlego

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Indicadores antecedentes indicam crescimento tímido no 1.º trimestre. Atividade só ganha fôlego com Previdência, segundo economistas. Depois de um ano fraco – o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,1% em 2018, a mesma expansão do ano anterior – os primeiros indicadores de 2019 já mostram que a economia brasileira segue com um ritmo ainda lento neste primeiro trimestre. Na leitura de bancos e consultorias, um desempenho mais robusto do PIB deste ano está condicionado ao andamento do ajuste fiscal, e só deve ocorrer a partir do segundo semestre.
A fraqueza atual da economia fica evidente pelos indicadores antecedentes já disponíveis da indústria e do comércio – aqueles que são utilizados para medir a ‘temperatura’ da atividade. Por ora, esses números mostram apenas uma recuperação das perdas observadas no fim do ano passado ou um crescimento modesto; o que, na avaliação dos analistas, não indica uma atividade econômica em forte aceleração.
Indústria foi a decepção do fim de 2018
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O que revelam alguns indicadores antecedentes dessazonalizados, ou seja, sem os efeitos típicos de cada mês:
A confiança do consumidor medida pela FGV subiu 3,9% em janeiro, mas caiu 0,5% em fevereiro;
O fluxo de veículos leves e pesados nas estradas teve um desempenho tímido em janeiro e cresceu 1,2% e 1,8%, respectivamente, após ficar praticamente estável em dezembro;
A produção de papel ondulado (usado pela indústria em embalagens, e por isso um indicador da atividade econômica) avançou 1,1% em janeiro e não compensou a queda de 1,8% em dezembro;
A venda de veículos teve alta de 2,9% em janeiro, recuperando pouco a queda de 2,7% de dezembro;
A produção de veículos cresceu 2,7% em janeiro, depois de recuar 5% em dezembro.
“Alguns indicadores estão apenas recompondo parte da perda de dezembro”, afirma a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. “Não é nada que chame muito a atenção, a economia continua andando devagar.”
Os últimos números de 2018 já mostraram uma atividade lenta, sobretudo com a piora do setor industrial. Com esse herança modesta, a maioria dos analistas passou a estimar um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mais próximo de 2% neste ano, abaixo da estimativa inicial de alta de 3%.
“Houve uma frustração da atividade econômica no fim do ano passado. A indústria de transformação, que já vinha perdendo gás, sofreu com a crise da Argentina”, afirma Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).
A Argentina – um dos principais parceiros comerciais do Brasil – enfrenta uma severa crise econômica, o que tem prejudicado a venda de produtos manufaturados brasileiros. No ano passado, o Brasil exportou US$ 14,951 bilhões para o país vizinho, abaixo dos US$ 17,618 bilhões apurados em 2017.
A atividade econômica do primeiro trimestre também deve ser prejudicada por uma menor contribuição do agronegócio. Com um clima ruim, a safra atual deve ser menor do que a de anos anteriores. No último levantamento, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou que a safra 2018/19 de soja vai chegar a 115,34 milhões de toneladas, 3,3% inferior ao produzido no ciclo de 2017/18.
“Neste ano, dada essa redução, não vai haver o forte impulso do agronegócio no PIB do primeiro trimestre”, afirma Artur Passos, economista do banco Itaú.
Base Fraca
Numa análise fria, as previsões para o PIB do primeiro trimestre até podem sugerir uma melhora da atividade na comparação com o quarto trimestre, quando o Brasil cresceu 0,x% na margem. Para os três primeiros meses de 2019, bancos e consultorias estimam um avanço de até 0,8%, mas esse desempenho pode ser explicado mais pela fraca base de comparação do que por uma aceleração da economia.
“Estamos com uma previsão de 0,8% (de crescimento no primeiro trimestre). Dá impressão de que está tudo bem, mas é que o quarto trimestre foi bem ruim, por isso esse número mais forte”, afirma o economista-chefe da consultorias MB Associados, Sergio Vale.
Aceleração só com Previdência
Os analistas avaliam que a economia só deve ganhar tração no segundo semestre se o governo conseguir aprovar a reforma da Previdência, considerada fundamental para o acerto das contas públicas. Sem ela, as previsões para a atividade econômica devem piorar, caminhando para um número de PIB abaixo de 2% no ano, segundo analistas, diante da falta de confiança dos investidores na solvência da dívida pública brasileira.
Neste mês, o governo Jair Bolsonaro apresentou a proposta para a reforma da Previdência que prevê mudança na idade mínima e abrange setores público e privado. A estimativa da equipe econômica é que a reforma traga uma economia de R$ 1,16 trilhão em dez anos, mas os economistas avaliam que esse valor deve recuar para uma faixa de R$ 600 bilhões a R$ 800 bilhões na negociação com o Congresso.
“Com a aprovação de uma reforma da Previdência, deve haver uma aceleração dos investimentos, puxando o crescimento do PIB no segundo semestre”, afirma Lucas Nobrega, economista do banco Santander.
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