Quarenta anos de ‘Carnavais, malandros e heróis’: para uma sociologia do dilema brasileiro

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Desfile da Portela de 2016, um dos que prestou homenagem à sambista Clara Nunes. Neste ano, ela será o personagem principal do enredo, que também fala de brasilidade, mestiçagem e religiosidade
Alexandre Durão/G1
Depois de tantos meses sofrendo com tragédias de todo o tipo será que os brasileiros vão brincar o carnaval? Os desfiles, blocos e bailes continuarão a atravessar os dias e as noites e o povo sairá por aí vestindo sua camisa amarela? Fazia-me esta pergunta depois de um final de semana pré-carnavalesco em que milhões de foliões saíram pelas ruas do Rio de Janeiro. Será que não vão decretar luto e dizer simplesmente – este ano não vou sair de colombina? As escolas de samba, que lutam com o bispo prefeito da cidade que não é amigo de momo, desistirão de gastar rios de dinheiro e dirão em alto e bom som – este ano não haverá folia?
Envolta nestes pensamentos decidi ligar para meu amigo Roberto DaMatta e botar o papo em dia. Conversamos por mais de uma hora sobre assuntos variados, mas não tive coragem de fazer esta pergunta ao antropólogo que se dedicou furiosamente ao estudo comparativo da tríade ritual – o Carnaval com seu desfile, blocos e bailes, a Parada de Sete de Setembro e a semana da Pátria, e as procissões religiosas – em seu magistral Carnavais, malandros e heróis. Lá pelo fim da conversa Roberto mencionou que seu livro, um sopro de ar fresco em nossa disciplina tão sisuda, acaba de completar quarenta anos.
Desliguei o telefone e me dediquei a reler o livro. Foram dias de reviver o que tinha experimentado há quarenta anos quando o li pela primeira vez. Éramos jovens então e eu, sob sua orientação, já havia escrito meu livro de estreia – Guerra de orixá –, muito influenciada por sua interpretação que estava então se constituindo, sobre o Brasil. A leitura juvenil não foi igual, de maneira alguma, à de agora, mas foi com a mesma alegria que reli as páginas absolutamente ricas em imaginação e visceralmente ligadas ao interesse pelo nosso país que vibra em Roberto até hoje.
Não precisei fazer a pergunta do porquê o Carnaval não vai faltar apesar das tristezas e tragédias que uniram e separaram os brasileiros em uníssono desde o incêndio do Museu Nacional, aliás onde o livro foi concebido. Estava tudo lá, dito de forma absolutamente cristalina.
Roberto traça o carnaval como ritual que fala sobre a nossa sociedade pelo inverso, no qual o povo organiza a festa, os pobres se vestem de nobres, as mulheres aparecem irreverentes, a noite vira dia e o drama se processa em absoluta licenciosidade. No ritual, vida e morte aparecem vividamente e a relação dos humanos com o mundo sobrenatural se configura tanto no desfile quanto nas fantasias.
No carnaval o drama e o dilema da nossa sociedade vão sendo contados e a vida estruturada do dia-a-dia é suspensa dando lugar a uma inversão que a reforça e reafirma. Na parada celebra-se a ordem, no carnaval impõem-se o excesso e a falta de ordem, e na procissão celebram-se a ordem e a desordem em ritmo diverso.
Esta interpretação do Brasil pelo ritual, informado por Victor Turner, Max Gluckman e sobretudo pelo estruturalismo de Lévi-Strauss levou a pensar o ritual a partir de Van Gennep e dos ritos de passagem e foi uma mudança de paradigma na sociologia.
Em seu livro Roberto DaMatta faz uma interpretação paralela que, no seu dizer, soma “às contribuições básicas de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes e tantos outros que, como eu, estavam somente certos de seu trabalho e convictos da esperança de que valia a pena correr o risco do erro para procurar entender melhor não uma sociedade ou um sistema abstrato, mas a terra sem a qual o mundo fica deslocado”. Mas eu penso que nunca antes se pensara o Brasil deste prisma e Roberto DaMatta influenciou gerações com uma pergunta simples e complexa ao mesmo tempo: “O que faz o Brasil, Brasil? ”.
Poderia falar muito mais sobre o livro, mas o que me impressionou nesta releitura foi que a estrutura do carnaval por ele descrita continua de pé, mesmo e apesar dos solavancos da história. Vivíssima está a inversão no carnaval de rua que cresce invertendo a ordem e mostrando ao mesmo tempo que continuamos a ser uma sociedade hierárquica, desigual, em que as mulheres, os negros, os pobres e os muitos outros desprovidos de poder assumem o lugar que quase sempre lhes é negado fora dos três dias de Momo (hoje são muitos dias).
Carnavais, malandros e heróis, que abriu passagem para uma nova interpretação do Brasil e dos brasileiros faz quarenta anos e nos ensina porque, apesar das tragédias, não é possível deixar de existir a festa que antecede a quarta-feira de cinzas, quando tudo volta a ser cotidiano, dia-a-dia, estrutura. Pierrôs, colombinas, esqueletos, monstros e máscaras metafóricas existem para reafirmar a nossa existência como sociedade de alma própria.
As tragédias que nos unem pela dor se diferenciam do rito carnavalesco e também nos unem porque são extraordinárias e acontecem sem dia marcado. O carnaval, a parada e a procissão, ao contrário, têm dia marcado, fazem parte do calendário religioso ou cósmico e como elabora DaMatta : “O ritual tem, então, como traço distintivo a dramaticidade, isto é, a condensação de algum aspecto, elemento ou relação, colocando-o em foco”.
O clássico da sociologia brasileira merece ser comemorado por muitos motivos, mas sobretudo porque nos livrou dos pecados de uma ciência carrancuda demais e abriu caminho para o universo ritual que metaforicamente fala de nós mesmos sem medo de pisar em calos.