Edy Star, pioneiro gay ‘glam’ do universo pop nacional, tem expandido o primeiro álbum solo em reedição em LP

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Efeito holográfico do vinil azul é o chamariz do produto fabricado com somente 500 cópias. Quando astros e estrelas da MPB ainda não ousavam dizer os nomes dos amores, Edivaldo Souza já vivia fora do armário. Baiano nascido em 1938 em Juazeiro (BA), terra natal de João Gilberto e Ivete Sangalo, Edy Star – como o cantor é conhecido artisticamente – tinha bossa e axé fora dos padrões sociais e sexuais.
Eles, os padrões, foram subvertidos musicalmente no primeiro álbum solo de Star, …Sweet Edy…, lançado em maio de 1974 pela gravadora Som Livre e reeditado no formato original de LP neste mês de abril de 2019, 45 anos depois, em edição expandida com duas faixas-bônus e arte gráfica ampliada com capa dupla, fotos e textos inéditos, além de efeito holográfico no vinil fabricado na cor azul.
Em bom português: esse efeito holográfico faz com que, quando a luz incide sobre a superfície do disco, o vinil revele prismas e fractais multicoloridos que sugerem a imagem de arco-íris, símbolo do orgulho gay. Já o encarte reproduz o formato idealizado em 1974 pelo artista, mas nunca concretizado.
Capa da edição em LP que celebra os 45 anos do álbum ‘…Sweet Edy…’
Divulgação / Selo 180
Viabilizada com o aval de Star e produzida por Rodrigo Andrade, através de parceria do selo fonográfico 180 com a Record Collector Brasil, a reedição de …Sweet Edy… é de somente 500 cópias numeradas e direcionadas a colecionadores de discos.
Primeiro álbum assumidamente gay e glam da música brasileira, …Sweet Edy… era título obscuro da discografia nacional até 2011, ano em que foi relançado em CD – em edição também luxuosa que incluiu libreto com fotos e texto biográfico-analítico do pesquisador musical Rodrigo Faour – pela gravadora Joia Moderna.
Reposto em catálogo após oito anos no formato de vinil de 180 gramas, o disco de Edy Star volta ao mercado fonográfico – 45 anos após a raríssima edição original em LP – em tempo de seduzir novos ouvintes pela aura cult e de desbunde que envolveu o disco.
Essa aura se estende ao repertório formado por músicas então inéditas cedidas ao cantor baiano por compositores do porte de Caetano Veloso (Conteúdo), Erasmo Carlos (Claustrofobia, parceria com o amigo de fé Roberto Carlos), Gilberto Gil (Edith Cooper), Jorge Mautner (Olhos de raposa), Moraes Moreira (Pro que der na telha, parceria de Moraes com Luiz Galvão) e Raul Seixas (1945 – 1989) (Super estrela, criada a partir de Johnny McCartney, música de Leno).
O nome de Raul Seixas na ficha técnica do disco, aliás, era até esperado, pois Edy formara com o conterrâneo Raul, com Sérgio Sampaio (1947 – 1994) e com Miriam Batucada (1947 – 1994) o quarteto que gravara há três anos o anarquista álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (1971) num descuido da diretoria da gravadora CBS.
Contracapa da edição em LP do álbum ‘…Sweet Edy…’
Divulgação / Selo 180
Contratado pela gravadora Som Livre em 1973, no vácuo da explosão provocada no mercado fonográfico brasileiro pelo álbum de estreia do trio Secos & Molhados, Edy Star gestou esse disco de clima pop roqueiro com a aura de desbunde típica da época. …Sweet Edy… mergulhou no universo do glam rock gringo, mas com o sabor tropical do Brasil e da América Latina.
Aliás, a oportunidade de gravar na Som Livre surgiu quando o então diretor da companhia fonográfica, João Araújo (1935 – 2013), assistiu ao performático show que Edy fazia nas madrugadas da boate carioca Number One e viu no artista uma versão tupiniquim do roqueiro glam estrangeiro.
Antes de lançar o álbum, o cantor debutou na gravadora em fevereiro de 1974 com a edição de compacto que apresentou gravações de Ai de mim (Edy Star, 1969) e Baiock (Chico Buarque, 1972), música lançada há dois anos com outra grafia, Baioque.
As duas gravações do compacto entram como faixas-bônus na edição comemorativa de 45 anos desse álbum que se conserva relevante mais pela atitude e pelo pioneirismo do que pela música em si. Tanto que, mesmo jogado nas alturas pelos críticos, …Sweet Edy… teve vendas baixas que inviabilizaram a continuidade da carreira fonográfica de Edivaldo Souza, vulgo Edy Star, aquele que sempre ousou dizer o nome.

Editoria de Arte / G1